PECADOS DO PAPA
Cobiça, corrupção e libertinagem na cúpula da Igreja
assustam fiéis e ameaçam a unidade do cristianismo.
A Igreja Católica vem perdendo
sua autoridade de redentora dos pecados dos homens para converter-se, ela
própria, num antro de perdição. Isso é o que se vê em Roma em nossos dias e,
talvez mais do que nunca, no papado atual. Os últimos papas desviaram-se da
tarefa pastoral para viver como chefes de Estado, movidos a cobiça, corrupção e
libertinagem. Mas o grande exemplo desse descalabro, que amedronta a
cristandade e ameaça a mais coesa religião da Europa, vem do alto do trono de
São Pedro pela figura de Alexandre VI, eleito papa em 1492. Alexandre VI usa
como nenhum outro a influência da coroa papal em benefício de suas paixões
terrenas. Famoso por colecionar amantes e nomear parentes para cargos
eclesiásticos com a facilidade de quem distribui hóstia na missa, Alexandre VI
empenha-se em um único objetivo: concentrar poder nas mãos de sua família.
Prova disso é o modo como protege e ao mesmo tempo manipula os filhos, sempre
visando a conquistas políticas.
A prole do papa espanhol, em si, não é propriamente motivo
de escândalo no ambiente de liberalidade de costumes que se vive em Roma desde
meados do século passado, quando pontífices passaram a assumir os filhos
bastardos nascidos antes da coroação papal. O que torna a crônica religiosa de
nossos dias espantosa é a incansável ambição de Alexandre VI, papa que coloca a
Igreja e a família a seu serviço. No próximo mês, o sumo pontífice abrirá os
salões da fortaleza de Sant`Angelo, seu castelo em Roma, para um baile
grandioso. Segundo o mestre de cerimonial do Vaticano, o papa ordenou que
vários edifícios da Cidade Eterna sejam embandeirados e iluminados. Escadarias
e muradas serão cobertas por tapetes. Espera-se o troar de canhões e bombardas
desde as primeiras horas do dia. O festim foi organizado para comemorar o
anúncio oficial do terceiro casamento de Lucrécia Bórgia, a filha do papa, com
o jovem Alfonso D`Este, herdeiro do ducado de Ferrara.
Terceiro casamento, note-se bem. Celebrar esse
terceiro casamento para a filha está longe de parecer um ato perturbador para o
papa. Ao contrário, é mais uma das suas articulações políticas, coisa que faz
com evidente prazer, mesmo tendo chegado aos 70 anos com saúde debilitada. O
novo matrimônio acontece após as sucessivas alianças de poder do papa terem
sofrido mudanças inesperadas. Com isso, o primeiro casamento de Lucrécia foi
anulado. Já o segundo teve um fim bem mais trágico: o assassínio do esposo. Há
quem garanta que o crime aconteceu no próprio Vaticano, ordenado por César
Bórgia, o filho do papa Alexandre VI cujas demonstrações de valentia o
transformaram em terror de Roma.
Sob o pretexto de proteger a cristandade da expansão
muçulmana, Alexandre VI criou um exercito católico, chamado Santa Liga, do qual
seu filho Cesar foi nomeado comandante.
A utilidade prática da milícia dos Bórgia não é
defender os domínios cristãos, e sim invadir, saquear e intimidar cidades que
pareçam hostis a seu desígnio. César tem-se tornado soberano dessas cidades.
Conquista pela forma as possessões territoriais que Alexandre VI não obtém por
decreto do Vaticano. Já não é segredo em Roma que o papa pretende fazer de seu
filho rei da Itália. Cesar Bórgia, fascinado pelo poder que o pai representa,
não dissimula sequer suas ações criminosas. “Toda noite, quatro ou cinco
pessoas assassinadas são encontradas em Roma”, escreveu o embaixador veneziano
Paolo Capello, insinuando que César Bórgia estaria por trás de cada uma das
mortes.
Colaborando com essa tese, aparece o testemunho
anônimo: “O duque de Valência deu uma punhalada em pleno peito num assistente,
em presença do papa e de numerosos prelados, e como este, indignado, o
repreendesse severamente, o duque ameaçou fazer o mesmo com ele”.
Duque de Valência é o título que Alexandre VI
concedeu ao filho César, depois que este desistiu da tiara cardinalícia que o
pai, redefinindo a palavra nepotismo, lhe havia arranjado. Queria fazer do
filho um cardeal, mas o rapaz achou que
era pouco. Está de fato tendo mais sem a tiara religiosa . As demonstrações de valentia
de César são parte fundamental das histórias que o acompanham. No ano passado,
durante os festejos do dia de São João, vestiu-se de toureiro e, com uma espada
na mão, enfrentou vários touros ferozes em uma arena especialmente construída
para o evento.
O clã do papa espanhol é merecidamente temível, mas
os analistas costumam reconhecer que parte de sua má fama decorre da rejeição
do clero italiano, que tradicionalmente controla a Igreja e não gosta de vê-la
nas mãos da família Bórgia, de origem espanhola. Os melhores empregos da Santa Sé
têm sido ocupados por espanhóis desde a investidura cardinalícia de Alfonso
Borja, tio do atual pontífice e primeiro membro do clã a ser sagrado papa, sob
o nome Calisto III. Entre outros postos de confiança, até a polícia de Roma foi
entregue aos espanhóis. Não é de estranhar, portanto, que o então cardeal
Rodrigo Borja só tenha conseguido ser eleito papa, há nove anos, elevando a
níveis nunca vistos a venda de benefícios eclesiásticos, artimanha amplamente
conhecida pelo nome de simonia.
Há muito que práticas assim vêm abalando o prestígio
da Igreja, com consequências ainda
imprevisíveis. Não se pense, contudo, que Alexandre VI seja a ovelha negra
entre aquelas que têm dominado o Vaticano nas últimas gerações. Houve
escândalos semelhantes anteriormente. Inocêncio VIII (papa entre 1844 e 1492)
teve seu pontificado marcado pela hostilidade com que facções antagônicas
disputavam cargos importantes no Sacro Colégio. Para se ter uma idéia,
Inocêncio atribuiu o título de cardeal a Giovanni de Medici, filho de Lourenço,
o Magnífico, então com apenas 13 anos e provavelmente ainda sem sequer ter
recebido o sacramento da crisma. Seu predecessor, Sisto IV (papa entre 1471 e
1484), fez cardeais quatro membros de sua família, entre sobrinhos e primos.
Autoridades do governo de Roma também eram nomeadas pelo papa, que priorizava
seus familiares. O nepotismo e o comercio de cargos eclesiásticos não são,
portanto, privilégio de Alexandre VI. Como ele, os papas que o antecederam
também ambicionavam fazer do Vaticano uma corte suntuosa. Diga-se a favor de
Sisto IV, no entanto, que ele empenhou dinheiro da Igreja na construção da
Capela Sistina, um marco arquitetônico de nossos tempos, decorada com obras de
pintores como Sandro Boticcelli.
O que se observa, porém, é um incremento nas más
qualidades. Instalado no centro de uma opulenta corte inspirada nos moldes
franceses, onde até a sola dos sapatos de seus privilegiados frequentadores é
feita de brocados preciosos, Alexandre VI sofre acusações bem mais graves do
que as que pesaram sobre outros papas. Além de manter uma ligação amorosa
estável com a bela Giulia Farnese, o papa seria dono de um verdadeiro harém,
desfrutado em conjunto com os próprios filhos. Entre as fantásticas histórias que se contam sobre
a devassidão na casa dos Bórgia, uma é especialmente rica em detalhes. Depois
de um jantar oferecido no Vaticano para cerca de cinquenta cortesãs, estas se
teriam entregado, nuas, a todos os presentes. O papa e Lucrécia acompanhavam
tudo, estimulando as cortesãs a enfrentar um desafio inusitado: transpôr, engatinhando, uma fileira de velas
acesas para apanhar, com a boca, castanhas espalhadas do outro lado do fogo.
Orgias assim seriam rotina nos luxuosos apartamentos dos Bórgia no Vaticano.
As denúncias de hoje soam
particularmente sérias quando comparadas à expectativa que se tinha em relação
a Alexandre VI quando o espanhol assumiu o trono de São Pedro. Na época, foi
saudado com os seguintes versos pelo poeta Delfini: “Roma foi grande com César,
maior ainda o é com Alexandre/ O primeiro era apenas mortal, mas o segundo é um
Deus”. Embora o elogio soe mais como sacrilégio, Alexande tem méritos
incontestáveis. Enquanto os reis católicos Isabel de Castela e Fernando de
Aragão inauguravam a era das perseguições religiosas na Espanha, o papa
protegia judeus, chegando a ser acusado de trair o cristianismo. Seus defeitos,
ironicamente, podem produzir resultados positivos. Ao promover tão ativamente
os interesses de sua família, ele vem reforçando a hegemonia política da Igreja
sobre os Estados Pontifícios, tantas vezes retalhados entre os nobres feudais.
Na qualidade de “senhor do mundo”, detentor de um poder temporal e
espiritual que exerce com tanto gosto, pôs todo o peso de sua autoridade
para intermediar as negociações entre Portugal e Espanha acerca da divisão das
nova terras que estão sendo descobertas.
Alexandre VI é também um incentivador das artes, qualidade tão apreciada nos
dias de hoje entre os poderosos. Contratou Pinturicchio, colorista até então
visto com imitador do célebre Perugino,
para decorar os aposentos de sua família no Vaticano. O protegido do papa
firmou-se como artista com luz própria, embora tenha exagerado um pouco na
gratidão a seu mecenas com o quadro Disputa de Santa Catarina, no qual Lucrécia
aparece retratada com a santa de Alexandria e seu irmão César como o imperador
romano Maxêncio.
Enquanto festeja a união de sua família à casa
Deste, Alexandre VI é alvo de uma campanha difamatória. Uma carta anônima
circula por cidades italianas enumerando os pecados do papa. “O bom pontífice
dedica-se ao amor de sua filha, juntando as pedrarias e jóias vindas de todos
os lados para enfeitá-la com luxo jamais visto no caminho nupcial, puma filha
ligada a ele por um crime imundo”, diz o documento. “Cobrem-se de elogios e de
admiração, mas temem sobretudo o seu filho, o fraticida que de cardeal se fez
assassino e age a seu bel-prazer. Este, à moda turca, está sempre cercado de um
enxame de prostitutas e guardado por soldados armados. A fome do pai e do filho
só se satisfaz com o roubo e só com o sangue humano matam a sede.” O panfleto enumera aquilo que o povo diz
abertamente sobre a família do santo padre mas ninguém, até agora, havia ousado
colocar num pedaço de papel. Conseguirá impedir o casamento de Lucrécia Bórgia
com Alfonso Deste? Alexandre VI está tão
seguro de suas ardilosas manobras que, mais além da festa de noivado, já está
pensando nas bodas. O cerimonial do Vaticano planeja comédias, bailes,
representações alegóricas, corridas, touradas, torneios e até uma batalha
naval. É gente que sabe aproveitar a vida.
Texto tirado da revista VEJA ano 33 nr. 17 – encarte
especial entitulado “A AVENTURA DO DESCOBRIMENTO” da edição da “Comemoração do
Brasil 500 anos” – páginas 66 a 69
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