O PONTIFICADO DE SÃO PEDRO
Existia, entre os antigos gauleses, o raro costume de
celebrar o solstício de verão,
encerrando nas vésperas, a um homem, dentro de grande cêsto de vime a que
ateavam fogo, e queimavam assim o infeliz. Esta prática pagã continuou entre os
povos cristãos, nas fogueiras com que festejam as vésperas de S.João e S.Pedro:
“Vemos, desta maneira, que um costume da tradição foi introduzido nas cristandade,
se bem que seja uma prática inofensiva, quem negará sua falta de apoio bíblico,
também se tenham insinuado no mundo cristão outras práticas de influência bem
diferente?
Há, com efeito, outro
ensino igualmente arraigado no cristianismo, de natureza exclusivamente
tradicional, mas de grande importância, porque se prende ao fundamento da
igreja verdadeira. Referimo-nos ao pontificado de S. Pedro, exercido, segundo a
tradição, em Roma, durante os últimos 25 anos de sua vida.
Uma Passagem Bíblica de Exegese
Errônea
Pretende-se defender o pontificado do apóstolo S.Pedro
citando uma passagem bíblica que, como todo inciso bíblico que por si só não é
concludente, para ser compreendida é necessário o estudo do contexto e de
outras passagens relacionadas com o tema.
Para o cristão, a base de sua doutrina e crença religiosa é
a Escritura Sagrada que, mediante a evidência de sua inspiração divina, põe
termo a tôda discussão doutrinária.
Alguém dirá que as Escrituras exigem, como guia espiritual,
a interpretação correta de quem esteja autorizado a fazê-lo. A melhor resposta
a esta objeção é a que foi dada por um dos padres da igreja, Sto. Irineu, que
ensinava: “O sentido das Escrituras é facilmente compreensível a todo espírito
reto e humilde. Se existem passagens obscuras, estas se explicam pelas que são
mais claras, de tal sorte que a Escritura se explica pela própria Escritura, e
não há necessidade para sua interpretação, de qualquer auxílio estranho.” E
acrescenta: “Acerca das grandes questões da fé e da salvação, não é possível
haver qualquer incerteza: a Bíblia é clara.”
Com este critério em vista, explicando as Escrituras pelas
mesmas Escrituras, procederemos a um breve estudo do assunto em aprêço.
O principal texto sôbre que pretende apoiar-se o pontificado
de S;Pedro e seu direito a ele conferido por Jesus Cristo mesmo, encontra-se no
capítulo 16 do Evangelho de S.Mateus. Esta passagem é inspirada e tem um
significado que nos cumpre conhecer. Mas também
são inspiradas as demais passagens do Nôvo Testamento, as quais nos
indicam a posição de São Pedro entre os outros discípulos.
Certa ocasião, Jesus fêz anos discípulos a pergunta
seguinte: “ Quem dizem os homens ser o Filho do homem?” Eles responderam: “ Uns
João Batista, outros Elias, e outros Jeremias ou um dos profetas.” Jesus
ausculta, então, o sentimento dos discípulos, fazendo-lhes a pergunta: “E vós, quem dizeis que Eu sou? E Simão Pedro,
respondendo, disse: Tu é o Cristo, o Filho do Deus vivo.”
“E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem aventurado és tu, Simão
Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas Meu Pai, que está nos
Céus. Pois também Eu de digo que tu és Pedro, e sôbre esta pedra edificarei a
Minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela; e Eu te darei
as chaves do reino dos Céus; e tudo o que ligares na Terra será ligado nos
Céus; e tudo o que desligares na Terra será desligado nos Céus.”
Devem ser consideradas
várias importantes declarações nas palavras que Jesus disse a S.Pedro.
Primeira: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja.” Para a
compreensão de uma passagem, o idioma original deve ser de importância capital,
e precisa ser consultado quando o assunto é pouco claro ou debatido. O
evangelho de S.Mateus foi escrito originalmente em aramaico, mas chegou até nós
em grego, e é desta língua que nos iremos valer. Neste caso, duas palavras têm
sentido especial: “Tu és Pedro (em grego Petros), e sobre esta pedra (em grego
petra) edificarei a Minha Igreja.” De fato “petros” é um seixo, um pedaço de
pedra, e “petra”, uma rocha. Então S.Pedro, “petros.” não era o fundamente, mas
sim Cristo, que é a “Rocha.” Dissemos que a Bíblia se explica a si mesma, e
este ponto desejamos demonstrar. S.Paulo, falando sobre o fundamente dos
apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina;
ao qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo do Senhor.”
(Efésios 2:20 e 2l)
Foram os apóstolos, todos
de igual maneira, os primeiros que concorreram para a edificação da Igreja
Cristã, mas firmados na “pedra angular,” Jesus, o Filho de Deus.
Outras passagens
confirmam a interpretação: “Jesus Cristo... é a pedra que foi rejeitada por
vós, os edificadores, a qual foi posta por cabeça de esquina. E em nenhum outro
há salvação, porque também debaixo do Céu nenhum outro nome há, dado entre os
homens, pelo qual devamos ser salvos.” (Atos 4;10-12) O mesmo apóstolo S.Pedro
chama a Jesus Cristo; “a pedra principal da esquina, eleita e preciosa, ... a
pedra que os edificadores reprovaram,” que “foi a principal da esquina: e uma
pedra de tropeço e rocha de escândalo.” “E quem nela crer não será confundido.”
(I S.Pedro 2:4-80) E o apóstolo S.Paulo,
por sua vez, também disse: “Porque ninguém pode pôr outro fundamento, além do
que já está posto, o qual é Jesus Cristo.” (I Coríntios 3:11) Esta
interpretação, correta e positiva exposta com clareza pelas Escrituras, é a
mesma que foi dada pelos cristãos dos primeiros séculos, o que é outra prova
que se apresenta em seu favor.
A opinião de Pais da Igreja
Possivelmente o mais
acatado dentre os padres da Igreja Católica é Santo Agostinho, e é ele quem
diz, comentando a passagem que estamos estudando: “Tu és Pedro, e sobre esta
pedra edificarei a Minha Igreja, deve entender-se: sobre Aquêle a quem Pedro
confessara, dizendo: Tu és Cristo, o Filho do Deus vivo. E que Pedro, apelidado
de pedra, representava a pessoa da Igreja, que está edificada sôbre a rocha e
recebeu as chaves do reino dos Céus. Pois não diz: Tu és a rocha (petra), mas : Tu és Pedro (petros).” - Retractaciones, 1:21.
O próprio Santo Agostinho
declara: “Sobre esta rocha que tu confessaste, edificarei a Minha Igreja;
Cristo mesmo era a rocha.” – Opúsculo 124, sôbre S. João.
Outros padres também não
entenderam que S. Pedro houvesse recebido supremacia, pois dizem “Mas Eu também
te digo, que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei Minha Igreja, isto é,
sobre a fé da confissão” – São João Crisóstomo, patriarca de Constantinopla no
Século IV. Homília 54.
“Sobre esta rocha da
confissão está edificada a Igreja. A fé
é o fundamento da Igreja. Mediante esta fé as portas do inferno são
impotentes contra ela. Esta fé tem a posse das chaves do reino dos Céus.” – De
Sto Hilário, bispo de Poitiers, do século IV, Sôbre a Trindade.
As chaves do
Reino dos Céus
Vejamos nos Evangelhos as
palavras: “E Eu te darei as chaves do reino dos Céus.” (S.Mateus, 16;19) Se
lermos também as palavras de S. Mateus, cap 23, v.13, e de S. Lucas, cap.11,
v.52, dirigidas pelo Senhor Jesus aos escribas e fariseus, dos quais se diz que
tinham a “chave da ciência, e fechavam aos homens “o reino dos Céus, “ torna-se
evidente que as chaves em aprêço são as Escrituras Sagradas, cuja obediência
nos prepara para a salvação. Tanto a porta, pois, como as chaves, são
alegóricas, como também alegòricamente entendemos o dito do Senhor: “Eu sou a
porta; se alguém entrar por Mim, salvar-se-á.’ (S.João 10:90
E acrescentamos agora a
mensagem de Jesus a Sua igreja, na qual Ele Se denomina a Si mesmo o “santo, o
que é verdadeiro, o que tem a chave de Davi, o que abre, e ninguém fecha; e fecha, e ninguém abre.” (Apocalípse
3;70)
A
Igreja tem Autoridade
O Senhor disse mais: “E
tudo o que ligares na Terra será ligado no Céu, e tudo o que desligares na
Terra será desligado nos Céus.” Esta não é uma prerrogativa de S.Pedro somente,
pois logo Jesus, falando ao grupo dos discípulos, pluralizou a expressão,
dizendo: “Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na Terra será
ligado no Céu, e tudo o que desligardes na Terra será desligado no Céu.’
(S.Mateus 18:18)
A Igreja, pela autoridade
das Escrituras e sob a direção do Espírito Santo, tem o direito de disciplinar
os membros e unificar as doutrinas, não requerendo, para isso, um chefe como
árbitro, nem como mandatário.
Apascenta
Minhas Ovelhas
O pontificado também quer
basear-se , quanto à supremacia de S. Pedro, nas palavras que Jesus lhe dirigiu
junto ao mar de Tiberíades, depois da ressurreição. Havendo-lhe perguntado três
vezes: Amas-me?” disse uma vez: “Apascenta os Meus cordeiros.” E duas vêzes
Jesus ainda lhe falou: “Apascenta as Minhas ovelhas.” (S.João 21:15-17)
O apóstolo havia triste e
vergonhosamente negado a seu
Senhor, depois de Lhe
haver assegurado sua lealdade a todo custo. Mas o carinhoso e benévolo olhar do
Salvador lhe inspirou sincera contrição, induzindo-o a chamar a Deus até
triunfar sôbre si mesmo. Pedro se convertera, mas se sentia indigno de ser
apóstolo de Cristo. Por isso o anjo mencionou especialmente o nome dele, ao
enviar a mensagem, depois da ressurreição de Cristo: “Mas ide, dizei a Seus
discípulos, e a Pedro, que Ele vai adiante de vós para a Galiléia.” (S.Marcos
16:7) E quando os viu na Galiléia, Jesus mesmo quis reabilitar o apóstolo
diante de seus companheiros, e lhe dirigiu a palavras de modo positivo, mostrando-lhe
que a condição para o apostolado é o amor e não o impulso ou a arrogante profissão de lealdade.
Falou a ele, porquanto era ele o que mais necessitava e porque , graças a sua
genuína e recente conversão, estava em condição de desempenhar uma importante
função entre os irmão, tanto naqueles dias como nos anos subsequentes.
É evidente a importância
da missão do apóstolo S.Pedro entre os gentios. Teve entre os judeus a mesma
responsabilidade que S.Paulo teve entre os gentios. E, fora deste, é ele, com
S.João, o apóstolo de maior influência. Mas nenhuma palavra de Cristo,
especialmente dirigida a ele, por quaisquer razões pessoais, se aplicaria mais
tarde a qualquer bispo ou série de bispos. Assim não entenderam os padres da
Igreja.
Não Existem Provas Ulteriores
da Supremacia do Apóstolo S.Pedro
Esclarecidas as passagens
com que se pretende manter a idéia da supremacia de S. Pedro, e não havendo
nenhuma razão que justifique a crença de haver sido ele nomeado papa, sigamos
agora a vida do apóstolo desde as palavras do Senhor, anteriormente comentadas.
Pouco depois da suposta
investidura de S. Pedro, Jesus teve que repreendê-lo severamente: “Para trás de
Mim, Satanás, que Me serves de escândalo,” disse-lhe o Senhor. (S.Mateus 16:23)
O grande apóstolo havia servido de instrumento do tentador. Precisava corrigir
seu caráter e submeter-se à direção divina. Só assim poderia chegar a ser o
convincente pregador que contribuiria para a conversão de milhares de pessoas.
Quando os discípulos
perguntaram a Jesus: “Quem é o maior no reino dos Céus?” (S Mateus 18:1), o
Senhor não Se aproveitou da ocasião para estabelecer a superioridade de
S.Pedro, mas antes disse que deviam ser todos como meninos humildes, sem
pretensão a títulos de grandeza.
“Então Jesus, chamando-os
para junto de Si, disse: Bem sabeis que pelos príncipes dos gentios são êstes
dominados, e que os grandes exercem autoridade sôbre êles. Não será assim
entre vós.” (S.Mateus 20:25 e 26) Entre os discípulos não haveria grandes
nem potentados.
O grande encargo de Jesus
a Seus discípulos, antes da ascensão, foi: “Portanto ide, ensinai tôdas as
nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo;
ensinando-as a guardar tôdas as coisas que Eu vos tenho mandado: e eis que Eu
estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos.” (S.Mateus 28:19 e
20) O encargo é uniforme: o poder dado é o mesmo para todos, e com todos
estaria Ele, de igual maneira, para dirigi-los, e não por intermédio de um
chefe visível.
No livro de Atos, em que
se relata a atuação dos apóstolos na igreja organizada, é onde se devia
manifestar, necessariamente, a exaltada posição de S Pedro como papa, se tal
fôsse sua autoridade. Nesse livro, porém, só se observa o fato de ser a hierarquia igual, a mesma entre os
apóstolos. Já no primeiro capítulo se vê que não é S.Pedro quem nomeia o que
devia tomar o lugar vago com a morte do traidor Judas, mas a Igreja, a
coletividade dos fiéis.
Outra passagem
concludente no livro de Atos reza assim: “os apóstolos, pois, que estavam em
Jerusalem, ouvindo que Samaria recebera a Palavra de Deus, enviaram para lá
Pedro e João.” (Atos 8:14) - Não foi
S.Pedro que, como Papa (como muitos supõem) que mandou alguém para lá por estar
ele revestido de autoridade especial, pelo contrário, ele é que foi mandado.
Não comentaremos o
concílio realizado em Jerusaleém, no ano 48 ªD., em que os apóstolos e outros
crentes se reuniram, sem que S.Pedro tivesse preeminência entre êles. Do relato
se depreende que era, de preferência, S.Tiago quem presidia e orientava o dito
concílio.
Nas epístolas de S.Paulo
notamos que o apóstolo aos gentios ignorava, por completo, a autoridade
pontifícia de S.Pedro. Disse ele aos corintios: “Visto que em nada fui inferior
aos mais excelentes apóstolos; ainda que
nada sou.” (II Coríntios 12:11) O
apóstolo que escreveu estas palavras era a mais alta expressão do genuíno
cristianismo, e nunca se haveria igualado a S.Pedro, houvesse este sido
exaltado por Jesus Cristo ao pôsto que agora se lhe atribui.
Ainda encontramos o seguinte:
“E conhecendo Tiago, Cefas (Pedro) e João, que eram con siderados como as colunas, a graça que se
me havia dado, deram-nos as destras, em comunhão comigo e com Barnabé...”
(Gálatas 2:9) Esta expressão denota igualdade entre os apóstolos. O relato se
torna grave no versículo onze: “E, chegando Pedro a Antioquia, se lhe
resisti na cara, porque era repreensível.”
S .Pedro não era uma rocha inabalável, estava sujeito a errar. Nunca foi
papa, mas foi um homem de Deus, usado pelo Espírito Santo no sentido de consolidar a igreja primitiva.
Cristo é o fundamento e a
cabeça da Igreja. Sua firmeza e direção, mediante Seu único e legítimo
representante, o Espírito Santo, garantem a vitória de Seu povo contra as
potestades das trevas, e podem assegurar a vitória e exaltação de todo crente
que, como os apóstolo, depositar nEle a fé, servindo-O com amor.
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